quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

E por falar em mudanças...

Por Letícia Passos


Foto: Pixabay


Já dizia o gênio da física, Albert Einstein, que “insanidade é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”, mas o brasileiro parece não compreender essa lógica. Faz parte da rotina escutar na rua alguém falando que é preciso mudar, que do jeito que está o Brasil não vai para frente.  Conversas de mudança são apenas discursos partidarizados para mesa de bar sem que a sociedade brasileira discuta soluções concretas em seu dia-a-dia. A política do Brasil nada mais é do que o reflexo do brasileiro. Pode dizer que é exagero, chiar dizendo que não vota em candidato ladrão, mas o fato é que somos, em nossa maioria, corruptos.

Somos corruptos quando estacionamos nas vagas para deficientes com a desculpa de que são “apenas cinco minutinhos”. Somos corruptos ao fingir estar dormindo para não levantar do assento preferencial no transporte público quando chega um idoso. Somos corruptos quando furamos a fila do banco porque estamos com pressa. Nossos filhos são corruptos quando preferem ficar no Facebook ao invés de estudar para a prova e aí, sem saber nada do assunto, cola do coleguinha da frente.

A chance de mudança aparece na faculdade. Em um semestre horrível em que as aulas são chatas e os professores negligentes. Sempre reclamamos insatisfeitos com o andamento da coisa, mas quando surge a chance de mostrar nossa insatisfação, quando podemos avaliar os docentes, por exemplo, resolvemos ignorar. E o motivo é porque temos medo que a avaliação vá parar nas mãos dos professores e eles nos tratem com maior rigor. É amigo, a sua covardia impediu o progresso.

O momento de mudar vem nas eleições. Entretanto, estamos tão "desiludidos" com a política que preferimos não comparecer. Mais de 7 milhões de brasileiros decidiram não se pronunciar nestas eleições. E, se de má vontade nos apresentamos, preferimos votar em branco e desperdiçar a única oportunidade de fazer a diferença. A chance de mudança também aparece na hora de tirar o poder das mãos de partidos conhecidos pela lista nada modesta de políticos ficha suja, mas preferimos votar no candidato que "rouba, mas faz" do que dar uma chance àquele candidato do partido menos popular. Talvez de lá saísse a mudança que o povo tanto deseja.

Rezamos pelo fim dos conflitos no Oriente Médio, criticamos o radicalismo islâmico, que oprime mulheres e executa gays, mas em nosso País votamos em candidatos conservadores e entregamos o poder de decisão do Estado Laico nas mãos de bispos e preenchemos a Câmara de Deputados com a "Bancada da Bíblia". Uma corja de fanáticos tão repulsivos quanto o Estado Islâmico. A única diferença é que eles são cristãos e disfarçam seus preconceitos com promessas de campanha.

A mídia internacional não deixou de notar o retorno do conservadorismo e a dominação expansiva do fanatismo religioso, especialmente com a eleição de Crivella para prefeito do Rio de Janeiro: The New York Times (Estados Unidos), The Guardian (Inglaterra), Le Monde (França) e o La Nación (Argentina), por exemplo, não viram com bons olhos esse resultado. Criticamos as emissoras de televisão que apresentam em suas novelas as “poucas vergonhas” e, no entanto, continuamos dando audiência para elas. Basta olhar o IBOPE de novelas como “Liberdade, Liberdade” da TV Globo, que bateu recorde de 30 pontos em alguns capítulos ou “Babilônia”, que apesar de ter começado com baixa audiência, nos capítulos finais atingiu quase 33 pontos, segundo a UOL e o Jornal O Globo. Reclamamos que os jornais manipulam conteúdo, excluem as minorias, só falam do mesmo assunto todos os dias, mas não procuramos outras fontes de informações e esperamos para ver o que o William Bonner vai contar para a gente.

Os religiosos pregam o amor, mas na hora de demonstrar a caridade para com o próximo parecem nem conhecer o significado da palavra. Falamos tanto em Deus e na sua compaixão, mas julgamos as ações dos outros, condenando alguns ao inferno apenas porque o que fazem é “pecado”. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar.

A transformação deve começar de dentro. Dificilmente haverá mudança com o famoso “jeitinho brasileiro” para conseguir vantagens. As chances de alterar esse quadro aparecem diariamente e falhamos em abraçá-las. Diz o ditado que “uma andorinha só não faz verão”, uma declaração corretíssima. Mas isso não significa que você não deve fazer a sua parte só porque o vizinho, o amigo, o parente não está fazendo.  As oportunidades estão todas aí, entoando seu cântico sedutor, mas teimamos em resistir. Discursar bonito na frente dos amigos é fácil. O que o Brasil precisa é de atitude, de gente decente que não teme a luta, mas encara as ameaças e não volta atrás quando o cassetete baixa. Gandhi já ensinava: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Acordai!

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