segunda-feira, 17 de abril de 2017

Eu estava aqui o tempo todo só você não viu

Metrô de São Paulo exibe obras de artes em suas estações.

Por Letícia Passos



“A Catedral do Povo – Painel 9, 1990”, Gontran Guanaes Netto. (Foto: Marco Santos/USP Imagens)

Os pés descalços mostram a agitação frenética dentro das paredes da estação. E apesar de representar a rotina dos passos que retumbam no piso diariamente, quase ninguém nota sua presença. Nos vagões do trem pouca gente olha para baixo e do piso, na saída da estação, ninguém olha para cima. Esse é o destino dos Painéis 4 e 5, da coleção “A Catedral do Povo”, do pintor brasileiro Gontran Guanaes Netto. Como um quadro pendurado na parede da sala há muito tempo, ninguém mais repara neles.

Situação similar ocorre com os desenhos da estação Corinthians-Itaquera da Linha-11 Coral, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Da plataforma lateral da estação Itaquera do Metrô é possível ver os grafites nas pilastras da estação vizinha — separadas apenas por um vão e uma grade metálica —, mas que pouquíssima gente nota ou encara somente como parte da paisagem diária. Os grafites foram feitos no ano passado para celebrar as Olimpíadas Rio-2016.

Estações como Sé e Tatuapé oferecem não apenas pintura, artes plásticas ou poesia, é possível também encontrar pianos, onde os usuários têm a chance de mostrar seu talento ou, para aqueles que não tocam, a oportunidade de apreciar um espetáculo musical sem precisar ir ao Teatro Municipal de São Paulo para isso.

O Metrô de São Paulo está repleto de cultura em suas estações, basta um olhar ao redor e as artes mais variadas vão saltar no seu caminho, só é necessário um olhar mais atento. É o caso da estação Corinthians-Itaquera, que desde o dia 30 de março, expõe painéis de vidro com informações sobre os personagens do Castelo Rá-Tim-Bum. O motivo da nostalgia é a abertura da Exposição de uma réplica do Castelo no Memorial da América Latina, que fica ao lado do metrô Palmeiras-Barra Funda.



Painéis apresentam os personagens icônicos do Castelo Rá-Tim-Bum.
(Foto: Letícia Passos)

Além das obras de arte, algumas vezes ao ano o metrô oferece aos usuários apresentações de música com bandas locais em pequenos palcos, que ficam montados durante duas ou três horas. Grande parte dos shows acontecem em estações de grande movimento como Sé e Corinthians-Itaquera.

Mas não é apenas o metrô que oferece cultura, muitos artistas de rua utilizam os vagões como espaço para shows: violões para o sertanejo de raiz, violinos para as interpretações clássicas, e até mesmo stand-up, para divertir os passageiros, é possível encontrar nas linhas do metrô.



Violinista se apresenta entre as estações Belém e Guilhermina-Esperança.
(Foto: Letícia Passos)



Mas afinal, tem alguém que nota tanta cultura no transporte público mais utilizado da cidade?

Ao ouvir a pergunta “Você já reparou em alguma obra de arte exposta nas estações que você mais costuma usar?”, o estranhamento é imediato. “Como assim? Exposição ou arte física, como pinturas?”, pergunta Alessandra Coelho (20), estudante de enfermagem. “Pinturas não sei, mas na estação Santa Cecília normalmente tem esculturas”. Três das quatro estações usadas por Alessandra tem alguma forma de arte. Em Itaquera, por exemplo, há oito painéis da coleção “A Catedral do Povo”, de Gontran Guanaes Netto, expostos na saída da estação, que a estudante garante nunca ter notado.

A reação da diarista, Selma Silva (48), foi praticamente a mesma ao ser perguntada se ela já tinha notado que na estação Marechal Deodoro, uma das que ela mais utiliza, tem painéis do mesmo artista. “A única coisa que eu vejo de vez em quando são umas roupas dentro de uma caixa de vidro”, revela ela. “Eu sei que na [estação] Paraíso tem um quadro bem grande com uma poesia, mas nunca consigo ler inteira porque a escada [rolante] chega antes de eu terminar”, conta a diarista. Ao ser informada de que os “vidros coloridos” da estação Anhangabaú são uma obra do artista plástico Mário Fraga, a surpresa em seu rosto é visível. “É mesmo? Já tinha visto, mas nunca parei para pensar sobre elas”.

Na estação Barra Funda, muitos dos usuários se surpreenderam ao serem apresentados ao painel “Movimento” de Cláudio Tozzi. Victória Bassi (18), estudante de Jornalismo, que utiliza a estação há um ano, nunca tinha notado. “Onde eles estão?”, pergunta, olhando ao redor. Ao vê-los, ela os observa por um minuto: “Quantos são? Ou só tem aquele?”, quer saber. Além dos painéis, a estação tem uma escultura do artista plástico Emanuel Araújo, intitulada “A Roda”.

Como Alessandra, Victória e Selma, das milhares de pessoas que passam pela Linha Vermelha-3 do metrô — uma das mais utilizadas da cidade — quase nenhuma repara nas obras de arte exibidas nas estações e, quando alguém as nota, não tira mais do que alguns segundos para apreciar o desenho ou o jogo de cores, e com o passar do tempo elas voltam a fazer parte da paisagem diária e não tem mais nada de surpreendente a oferecer aos passantes.


E como diz a música “Na sua estante” da cantora baiana Pitty “Eu estava aqui o tempo todo só você não viu”. As obras estão ali expostas há anos, mas a pressa do dia-a-dia e as dezenas de distrações provindas dos arredores impedem que os usuários do metrô as enxerguem de verdade.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Tom crítico na música pop internacional

Letras mais críticas e oposição ao sistema: polêmicas e conscientização.

Por: Giovana Costa

A música sempre foi um meio de expressão muito importante para a sociedade. No Brasil por exemplo, durante os anos 80 surgiam muitas bandas influenciadas pelo new-wave e o punk, as críticas políticas eram praticamente a base para as canções, como “Que país é esse?” de Legião Urbana, “Ideologia” de Cazuza e “Até quando esperar?” de Plebe Rude. Apesar do rock ter essa característica de quebrar paradigmas e ir contra o sistema, a música pop também tem surpreendido com lançamentos mais críticos, que vão além da superficialidade das letras usuais sobre festas, dinheiro e curtição. 
      
Cantoras se posicionam na música pop: Beyoncé, Madonna e Katy Perry.
Em 2003, após ter se envolvido em lançamentos polêmicos sobre religião e sexualidade, a cantora Madonna resolveu lançar um disco intitulado “American Life”, no qual se dedicou a tratar de assuntos sobre a vida americana. Com seu primeiro single, Madonna criticou a superficialidade das guerras, já que na época as tropas americanas se encontravam no Iraque através das ordens do, até então, presidente George W. Bush (parece até mentira estarmos vivendo um momento tão atual, o clipe poderia muito bem ilustrar o que têm acontecido na Síria, nas últimas semanas). No clipe da faixa que dá título ao álbum, a cantora expõe um desfile de moda com roupas que envolvem camuflagem, granadas, arames farpados e membros decepados devido às guerras, enquanto as pessoas assistem a tudo com normalidade, ela surge mostrando os horrores da guerra em um grande telão. Madonna também critica o modelo de vida americano baseado no consumo desvairado, pontuando suas falhas: “Eu gostaria de expressar meu ponto de vista extremo. Não sou cristã e nem judia, só estou vivendo distante do sonho americano. E acabo de descobrir que as coisas não são o que parecem ser”. Esta parecia ser a última vez que uma cantora da música pop faria críticas tão severas, já que o clipe de Madonna foi banido em muitos lugares e desde então, a cantora já não vende como costumava vender nos Estados Unidos.
Confira o vídeo (e tente segurar a marimba, após esse lacre): https://www.youtube.com/watch?v=sNAw3f5VXA8

Quando a rainha já chega chegando, já sabemos que o assunto é sério.
Entretanto, em fevereiro do ano passado, a cantora Beyoncé lançou seu novo single e clipe “Formation”, o carro chefe de seu último disco “Lemonade”. A música pauta-se na história e na luta da população negra nos Estados Unidos. O clipe traz muitas referências como o abuso de poder policial, a segregação racial e até o movimento “Black Lives Matter”. Desde 2013, o movimento que, luta contra a desigualdade racial no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos, tem ganhado espaço através das redes sociais. As composições mais conscientes geram uma força maior para os movimentos sociais, pois a popularização dessas músicas faz com que as pessoas compreendam mais as lutas das pessoas historicamente oprimidas. É exatamente o caso da canção de Beyoncé que faz referência a acontecimentos históricos como o ocorrido em 2010, em Nova Orleans, quando um ativista negro foi assassinado, aos 22 anos, após sair do chá de bebê de seu filho. Como o crime não foi resolvido, a música inicia-se com uma pergunta: “O que aconteceu em Nova Orleans?”.
"Okay ladies, now let's get in formation!" Vem: https://www.youtube.com/watch?v=WDZJPJV__bQ

Bey já exibe as tranças toda trabalhada no empoderamento <3
Após a vitória de Donald Trump nas eleições para presidente dos Estados Unidos no ano passado, muitos artistas mostraram-se descontentes com o fato e marcaram presença na “Women’s March” que aconteceu em janeiro de 2017. A marcha das mulheres aconteceu em inúmeras partes dos Estados Unidos e reuniu uma multidão insatisfeita com a escolha do presidente. Em janeiro deste ano, a cantora Katy Perry, que também foi um dos destaques da marcha, lançou seu novo single: “Chained To The Rhythm” (“acorrentados ao ritmo”). A cantora apoiou durante muito tempo a concorrente de Trump, Hillary Clinton, e durante esse período pré-eleições se mostrou muito mais engajada nas questões políticas e sociais do país, o que se refletiu na sua música. A canção faz críticas diretas ao sistema como um todo, ela fala sobre alienação e como utilizamos a diversão como “escapismo”, deixando de se importar com questões importantes: “Estamos loucos? Vivendo nossas vidas através de lentes, confortáveis em nossas bolhas… Você não está sozinho nessa utopia, onde nada nunca será suficiente. Estamos deliciosamente entorpecidos. Estamos todos acorrentados ao ritmo.” 

Katy (toda maravilhosa, claro) tentando compreender a patifaria toda.
No clipe, a cantora retrata “Oblivion”, um parque de diversões que faz alusão as polêmicas políticas imigratórias de Trump, ao machismo e ao uso da guerra como instrumento de poder. “Chained To The Rhythm” também conta com a participação de Skip Marley, imigrante jamaicano (neto de Bob Marley) que deixa claro sua posição, na canção: “ O meu desejo é derrubar os muros para conectar e inspirar. Prestem atenção aí em cima, seus mentirosos. O tempo do império está acabando. Enquanto eles tropeçam e tateiam, nós estamos prestes a nos revoltarmos! Eles acordaram os leões!”. 
Vem conhecer Oblivion, se atente bem a todas as referências, hein?! São vááárias! https://www.youtube.com/watch?v=Um7pMggPnug

As canções também tiveram ótimo desempenho nas paradas, nas redes sociais por exemplo, os vídeos das músicas são compartilhados constantemente, chegando a 100 milhões de acessos no YouTube. Além do desempenho, as músicas fazem com que as pessoas se interessem pelo assunto e até procurem saber mais sobre. Seja em 2000 ou 2017, o fato é que a tendência de músicas mais críticas tem agradado e têm se mostrado uma boa forma de trazer mensagens mais engajadas em causas importantes como o racismo, a homofobia, o machismo e o consumo desacerbado, através da música.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Loka das Séries — Precisamos falar de #13ReasonsWhy

Mais do que entretenimento, a nova série da Netflix aborda a temática dos dramas subestimados vividos por adolescentes em todo o mundo.

Por Letícia Passos




Thirteen Reasons Why (Os Treze Porquês, no Brasil) estreou há uma semana na Netflix e já conquistou uma legião de fãs em todo o mundo, especialmente o público adolescente, que tem se identificado com a temática da série. O programa foi inspirado no livro de mesmo nome do escritor americano Jay Asher.

A série conta a história de Hannah Baker, uma jovem de 17 anos, que é nova na cidade e na escola Liberty High School e acaba se envolvendo com pessoas erradas que destroem sua reputação, sua autoestima e, por fim, sua vida. Hannah era uma garota alegre que foi colocada diante de situações constrangedoras e alarmantes capazes de tirarem o seu desejo de viver e ver o futuro que sempre sonhou em ter se realizar.

Cada episódio traz o histórico de Hannah com um personagem cujas ações a humilharam ou magoaram de alguma forma. Uma por uma, as atitudes das pessoas que ela considerou “amigas” foram despedaçando seu corpo, sua alma e seu coração. São 13 fitas que detalham os momentos felizes e também os dolorosos vividos por ela ao longo de dois anos.

Thirteen Reasons Why veio como um alerta a pais, alunos e professores sobre os problemas enfrentados pelos jovens: o bullying, a necessidade de se encaixar e fazer parte de um grupo, os amores frustrados e /ou platônicos, o estupro e o assédio, a homossexualidade, o abuso de drogas (como álcool e maconha) e o suicídio. São muitos assuntos que fazem o telespectador refletir sobre como a sociedade moderna tem se comportado. A série aponta a distração dos pais ao não notarem os problemas dos filhos, pessoas que preferem enfrentar os problemas sozinhos a se abrir com alguém, jovens que usam a automutilação como forma de lidar com a repressão de sentimentos ou a intimidação como forma de esquecer os problemas vividos dentro de casa.

Foto: Diários de um seriador

Um dos motivos apontados pela série sobre o que faz os jovens esconderem agressões e abusos físicos ou verbais sofridos no ambiente escolar ou mesmo dentro de casa é o medo de ser julgado, visto como fraco ou ser tachado como “dramático” por pessoas que não compreendem que esta fase é crucial para a formação emocional de uma pessoa e que qualquer problema, por menor que seja, deve ser tratado com seriedade e resolvido de maneira adequada. Assim, a série mostra a importância do apoio, compreensão e diálogo entre amigos e familiares diante dos dramas vividos pelos adolescentes.

A série traz à memória a importância de campanhas como “Setembro Amarelo” que conscientizam a população de que o suicídio é um problema sério possível de ser prevenido. A organização de prevenção ao suicídio já registrou um aumento no número de pedidos de ajuda desde o lançamento da série, demonstrando o impacto positivo que Thirteen Reasons Why gerou no público.

Com tantas críticas e resultados bons é de se esperar que a série tenha mais algumas temporadas, mas nada está confirmado ainda. No entanto, a produtora da série Selena Gomez (sim, a cantora!) e a atriz Katherine Langford (Hannah Baker) deram a entender em entrevista que há muito a ser contado, o que possivelmente traria mais algumas temporadas pela frente. “Definitivamente há mais história para serem contadas. Seria legal continuar esse diálogo. Há tantos ganchos no final da temporada”, comentou Katherine. “Nós ainda não sabemos o que acontecerá, mas sabemos que há muitas histórias profundas por trás de cada personagem. É por isso que se tornou uma série em primeiro lugar. Então, vamos ver”, explicou Selena Gomez.

O público com certeza está esperando por uma segunda temporada que vá explicar o futuro de Bryce Walker (Justin Prentice), Alex Standall (Miles Heizer) e Jessica Davis (Alisha Boe), por exemplo, além do segundo protagonista Clay Jensen (Dylan Minnette).


E você? Já assistiu? O que achou da série?

terça-feira, 4 de abril de 2017

Loka das Séries — Chegou o julgamento. E agora?

Por Letícia Passos





Como telespectador, você já deve estar acostumado a acompanhar a investigação de um crime, seja assassinato, roubo ou mesmo um incêndio criminoso. Mas depois que se descobre o culpado, o que acontece? Ele/ela é levado à justiça, certo? Você saberia descrever como acontece a seleção do júri, dos promotores ou do advogado de acusação e defesa? Se a sua resposta é não para alguma dessas perguntas, temos séries perfeitas para te dar um insight sobre o assunto. Caso você saiba, que tal se divertir na companhia de uma turma que sabe tudo sobre julgamento?

A sugestão de hoje vai para a série Bull, do canal americano CBS. O programa é inspirado no início da carreira do doutor Phil McGraw, que também é criador da série. Phil McGraw é um psicólogo americano que se tornou conhecido ao participar dos programas da Oprah Winfrey (rainha da TV americana!) como consultor de comportamento e relações humanas. Dr. Phil, como é mais conhecido, começou sua carreira ajudando advogados a defender seus casos no tribunal usando psicologia.

Os lemas da série são “Outthink the system” e “He’ll get you off” (algo como ‘seja mais esperto que o sistema’ e ‘ele vai te tirar dessa’) e, de fato, é isso o que o Dr. Jason Bull faz espetacularmente bem. Interpretado pelo lindo e talentoso Michael Weatherly (Anthony DiNozzo, de NCIS), de forma ousada e brilhante, Dr. Bull usa seu conhecimento sobre a natureza humana para ajudar seus clientes a convencer o júri da inocência deles e alcançar o veredito Not Guilty (inocente).

Além da genialidade de Bull, a Corporação de Análise de Julgamento (ou TAC) conta com uma equipe especializada que cuida desde as roupas que mais podem influenciar o júri até a análise tecnológica de reações físicas e emocionais dos jurados a partir do “júri espelho” — pessoas que tem os mesmos gostos que o júri verdadeiro.

O que muitos telespectadores pensam ao assistir essa série é: Bull está burlando o sistema ou está apenas usando os recursos que tem ao seu dispor para ajudar seus clientes? Essa resposta você só saberá acompanhando cada caso analisado por ele. O que podemos garantir (por enquanto) é que a TAC apenas aceita clientes que são realmente inocentes.

Além dos atores talentosos no elenco, como Michael Weatherly e Freddy Rodriguez (Miguel O’Hara, de Espetacular Homem-Aranha), a série é produzida por ninguém menos que Steven Spielberg, que tem no currículo produções como Jurassic Park, AI – Inteligência Artificial, e O resgate do soldado Ryan. Quem nunca ouviu falar desse gênio de Hollywood?

Com uma trama intrigante, atores de peso e um dos nomes mais adorados do cinema na produção da série, não tem como não assistir Bull. A série, que está na primeira temporada (ainda em exibição), já teve renovação confirmada pela CBS. Agora é só preparar a pipoca e se divertir ao lado do Dr. Bull e sua equipe.