Letras mais críticas e oposição ao sistema: polêmicas e conscientização.
Por: Giovana Costa
A música sempre foi um meio de expressão muito importante para a sociedade. No Brasil por exemplo, durante os anos 80 surgiam muitas bandas influenciadas pelo new-wave e o punk, as críticas políticas eram praticamente a base para as canções, como “Que país é esse?” de Legião Urbana, “Ideologia” de Cazuza e “Até quando esperar?” de Plebe Rude. Apesar do rock ter essa característica de quebrar paradigmas e ir contra o sistema, a música pop também tem surpreendido com lançamentos mais críticos, que vão além da superficialidade das letras usuais sobre festas, dinheiro e curtição.
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| Cantoras se posicionam na música pop: Beyoncé, Madonna e Katy Perry. |
Em 2003, após ter se envolvido em lançamentos polêmicos sobre religião e sexualidade, a cantora Madonna resolveu lançar um disco intitulado “American Life”, no qual se dedicou a tratar de assuntos sobre a vida americana. Com seu primeiro single, Madonna criticou a superficialidade das guerras, já que na época as tropas americanas se encontravam no Iraque através das ordens do, até então, presidente George W. Bush (parece até mentira estarmos vivendo um momento tão atual, o clipe poderia muito bem ilustrar o que têm acontecido na Síria, nas últimas semanas). No clipe da faixa que dá título ao álbum, a cantora expõe um desfile de moda com roupas que envolvem camuflagem, granadas, arames farpados e membros decepados devido às guerras, enquanto as pessoas assistem a tudo com normalidade, ela surge mostrando os horrores da guerra em um grande telão. Madonna também critica o modelo de vida americano baseado no consumo desvairado, pontuando suas falhas: “Eu gostaria de expressar meu ponto de vista extremo. Não sou cristã e nem judia, só estou vivendo distante do sonho americano. E acabo de descobrir que as coisas não são o que parecem ser”. Esta parecia ser a última vez que uma cantora da música pop faria críticas tão severas, já que o clipe de Madonna foi banido em muitos lugares e desde então, a cantora já não vende como costumava vender nos Estados Unidos.
Confira o vídeo (e tente segurar a marimba, após esse lacre): https://www.youtube.com/watch?v=sNAw3f5VXA8
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| Quando a rainha já chega chegando, já sabemos que o assunto é sério. |
Entretanto, em fevereiro do ano passado, a cantora Beyoncé lançou seu novo single e clipe “Formation”, o carro chefe de seu último disco “Lemonade”. A música pauta-se na história e na luta da população negra nos Estados Unidos. O clipe traz muitas referências como o abuso de poder policial, a segregação racial e até o movimento “Black Lives Matter”. Desde 2013, o movimento que, luta contra a desigualdade racial no sistema de justiça criminal dos Estados Unidos, tem ganhado espaço através das redes sociais. As composições mais conscientes geram uma força maior para os movimentos sociais, pois a popularização dessas músicas faz com que as pessoas compreendam mais as lutas das pessoas historicamente oprimidas. É exatamente o caso da canção de Beyoncé que faz referência a acontecimentos históricos como o ocorrido em 2010, em Nova Orleans, quando um ativista negro foi assassinado, aos 22 anos, após sair do chá de bebê de seu filho. Como o crime não foi resolvido, a música inicia-se com uma pergunta: “O que aconteceu em Nova Orleans?”.
"Okay ladies, now let's get in formation!" Vem: https://www.youtube.com/watch?v=WDZJPJV__bQ
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| Bey já exibe as tranças toda trabalhada no empoderamento <3 |
Após a vitória de Donald Trump nas eleições para presidente dos Estados Unidos no ano passado, muitos artistas mostraram-se descontentes com o fato e marcaram presença na “Women’s March” que aconteceu em janeiro de 2017. A marcha das mulheres aconteceu em inúmeras partes dos Estados Unidos e reuniu uma multidão insatisfeita com a escolha do presidente. Em janeiro deste ano, a cantora Katy Perry, que também foi um dos destaques da marcha, lançou seu novo single: “Chained To The Rhythm” (“acorrentados ao ritmo”). A cantora apoiou durante muito tempo a concorrente de Trump, Hillary Clinton, e durante esse período pré-eleições se mostrou muito mais engajada nas questões políticas e sociais do país, o que se refletiu na sua música. A canção faz críticas diretas ao sistema como um todo, ela fala sobre alienação e como utilizamos a diversão como “escapismo”, deixando de se importar com questões importantes: “Estamos loucos? Vivendo nossas vidas através de lentes, confortáveis em nossas bolhas… Você não está sozinho nessa utopia, onde nada nunca será suficiente. Estamos deliciosamente entorpecidos. Estamos todos acorrentados ao ritmo.”
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| Katy (toda maravilhosa, claro) tentando compreender a patifaria toda. |
No clipe, a cantora retrata “Oblivion”, um parque de diversões que faz alusão as polêmicas políticas imigratórias de Trump, ao machismo e ao uso da guerra como instrumento de poder. “Chained To The Rhythm” também conta com a participação de Skip Marley, imigrante jamaicano (neto de Bob Marley) que deixa claro sua posição, na canção: “ O meu desejo é derrubar os muros para conectar e inspirar. Prestem atenção aí em cima, seus mentirosos. O tempo do império está acabando. Enquanto eles tropeçam e tateiam, nós estamos prestes a nos revoltarmos! Eles acordaram os leões!”.
Vem conhecer Oblivion, se atente bem a todas as referências, hein?! São vááárias! https://www.youtube.com/watch?v=Um7pMggPnug
As canções também tiveram ótimo desempenho nas paradas, nas redes sociais por exemplo, os vídeos das músicas são compartilhados constantemente, chegando a 100 milhões de acessos no YouTube. Além do desempenho, as músicas fazem com que as pessoas se interessem pelo assunto e até procurem saber mais sobre. Seja em 2000 ou 2017, o fato é que a tendência de músicas mais críticas tem agradado e têm se mostrado uma boa forma de trazer mensagens mais engajadas em causas importantes como o racismo, a homofobia, o machismo e o consumo desacerbado, através da música.




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