Eles esperam por você
- Rocio Paik
Cachorro disponível para adoção no centro de zoonoses. Foto: Rocio Paik.
Cinco moradores de rua morreram este ano por causa do frio. Pelas ruas cinzentas do centro paulistano, Celso arruma os papelões de sua carroça entre os pedaços de pano velhos descartados no chão. O barrete cinza combina com o asfalto e a poluição tão familiar de São Paulo. Dentro de seu carrinho, três cabecinhas saem para espiar os que se aproximam de seu dono. Os olhares protetivos de Corínthia, Lolo e Bobby se levantam a todo instante para vigiar e proteger o dono. Celso, morador de rua, apresenta alegremente seus companheiros e relata que conviveu com os três cachorros há quatro anos. “Para mim, é a minha família, é tudo”, revela ele ao ser indagado sobre a importância dos animais em sua vida. Para tentar contornar a situação de flagelo causado pelas baixas temperaturas o prefeito Fernando Haddad instalou albergues provisórios. Antes desta decisão, os moradores de rua mas objetos pessoais e cachorros não podiam entrar com seus donos nos abrigos. Desta forma, alguns preferiram pôr suas vidas em risco e permanecer ao relento junto com seus pertences e seus cães. Essas pessoas arriscam as próprias vidas para não abandonar seus animais. Foi por isso que Haddad decidiu implementar a experiência de deixar que os moradores de rua pudessem ir para os albergues junto com seus cães.
As palavras são sinceras. Curtas, porém suficientes para demonstrarem o companheirismo e o amor entre o ser humano e o cachorro. A convicção nos olhos do dono de quem nunca abandonaria seus cachorros, seja o que acontecesse, provava que em São Paulo poderia, ainda, brotar a esperança do amor pela adoção de animais. O breve diálogo com Celso, apesar de suas pequenas respostas, ecoou a voz dos moradores de rua que deixavam em risco suas vidas para estarem juntos aos seus familiares. Inculcou a importância destes seres indefesos, mas grandes companheiros. Corínthia, Lolo e Bobby foram um dos 20 milhões de cachorros abandonados na grande metrópole paulistana segundo a estatística da Organização Mundial de Saúde, entretanto, salvas graças a uma alma solidária.

Morador de rua com seus cachorros. Foto: Rocio Paik.
Os motivos do abandono variam desde a impossibilidade da criação pela condição financeira, falta de tempo e falta de responsabilidade até a ausência de carinho. A causa do afastamento é sempre triste, mas as consequências podem ser ainda piores. Imagine ver o seu cachorro desnutrido buscando por lixo para obter comida. Ter o conhecimento de que ele acarretou uma doença por conta do contato com alimentos contaminados. Perceber que ele ainda está o procurando. Descobrir que sua pata está ferida por um acidente em que ninguém se responsabilizou. E, logo, reparar que nesse grave estado, mesmo inserido em um centro de adoção, ninguém o adotaria. Vendo a vida de Celso é perceptível como os cachorros dão uma vida mais colorida às pessoas, existindo uma relação mútua entre estes. Os animais abandonados dependem da solidariedade humana. Além da alimentação saudável que os seres humanos podem lhes oferecer, do sorriso, do carinho e do abraço. “Os cachorros são dependentes dos seres humanos”, como afirma o fotógrafo de moradores de rua, Edu Leporo relata.
Uma das voluntárias da instituição do Centro de Adoção Natureza em Forma, Aline Caovila, demonstrou a realidade dos cachorros em espera da adoção. O lugar visitado estava cheio de animais engaiolados. A cada passo dado, sentia-se e o olhar desesperado dos pequenos seres se direcionando ao visitante. Era sombrio, escuro, abafado, sufocante. A cada instante, uma agonia constante. Aline, calmamente, relatou que o trabalho era feito em parceria com outras ONGs e protetoras que resgatavam os animais. Os cachorros passariam a semana esperando no próprio centro de adoção e, nos finais de semana, voltariam para as associações de resgate. Este ciclo se repetiria constantemente, até que se chegasse o fim da vida desses animais.
Caovila, que trabalhou no centro há dois anos, com um tom melancólico e frio, dizia que os cachorros são como crianças que precisam de atenção, de uma família, contato e convivência com as pessoas. Afirma que, infelizmente, as pessoas optavam por selecionar e comprar animais de determinadas raças do que adotar: “Toda situação para a gente é especial. Todo animal que ganha um lar é uma situação bacana. A gente tenta se ligar no presente e no futuro dele. Não no que passou, sempre daqui a frente,” garante. A moça, após um triste suspiro, alegou que já houve um caso no qual um cachorro cego ficou seis anos esperando por alguma alma solidária: o Jacobá. Disse também que haviam cachorros que morriam dentro das gaiolas esperando pela compaixão das pessoas. Num ambiente onde vários animais escutavam a entrevista, o medo crescia ao parecer que eles podiam entender a conversa. A palavra “morte” asfixiava, ainda mais, o deprimido instituto.
No site do Mercado Livre, anunciam a venda, em São Paulo, de cachorros classificados por RAÇA. 7433 vidas ranqueadas por preços. Além de vendidas, 7433 vidas estão sendo selecionadas. Sendo, portanto, esta informação um indício de que muitas pessoas investem o dinheiro em cachorros apenas de raças desejadas, ou melhor, para cachorros que passam a servir de enfeites e objetos de ostentação. Daí a necessidade de se estimular a adoção responsável em vez da compra. Assim, uma súbita curiosidade esclarecedora surgiu no PET Shop Cobasi. Na empresa se encontravam cachorros vira-latas dentro de suas gaiolas, latindo. Situavam-se na área para receberem doações de ração. Cerca de vinte pessoas passavam ao redor da matilha e apenas observavam. Ouvia-se de um lado e do outro como esses cachorros eram coitados, mas ninguém fazia absolutamente nada. Era notável que, os cães latiam de fome. E carência. Assistindo a situação deprimente, foi preciso indagar os clientes para compreender o porquê do descaso.
Fátima, analista de sistemas, estava com o seu cachorro tosado e comprado, da raça Lhasa apso. Dado o exemplo da venda de cachorros de raça no site do Mercado Livre, a senhora lançou a sua opinião sobre o caso. Fátima acredita que toda vida tinha um preço. Compara com situações realísticas dos seres humanos: diz que o preço da vida das pessoas que morriam por causa de falta de assistência médica é de quinhentos reais, preço de um convênio médico. Marcele, assessora, e Rafael, professor de educação física, compraram um filhote Pit bull. Relatam que foi uma raça que eles sempre desejaram ter. Disseram que, infelizmente, a maioria das pessoas optavam por comprar cachorros, procurando determinadas raças e filhotes. Porém, não se deram conta de que eles mesmo faziam parte da estatística.
Em contraposição, Marli, pedagoga, que ganhou seu cachorro de um amigo, demonstrou a irracionalidade das pessoas ao comprarem vidas. Mesmo as pessoas carregando o temor de que cães abandonados, vira-latas e cachorros em adoção tragam doenças e deem o grande trabalho de efetuar tratamentos de saúde, não justifica a compra de animais de raça: “Ao invés das pessoas gastarem por um cachorro de raça de dois mil reais, podem simplesmente pegar um bicho e pagar tudo, dar assistência.”
Após a vista de uma cruel realidade, falta de empatia das pessoas e a tristeza dos cachorros no PET Shop, foi preciso buscar algo que desse esperança. Foi o que aconteceu com a estudante Isabella Tibiriçá. A vida de Tibiriçá mudou após ter feito uma de suas melhores escolhas: adotar um cachorro. Ela foi numa ONG em São Paulo chamada ‘Amigo San Francisco’, onde conseguiu encontrar a sua alegria. Emocionada, relatou que havia feito a opção certa em acolher a vida de um pequeno ser vivo: o Cairo. A dona conta que, a princípio, passava uma grande parte de seu tempo sozinha em seu quarto. E cada membro da família, constituída por mãe, pai e irmão, agiam por conta própria. Porém, com a chegada do simpático vira-lata, Tibiriçá percebeu que as coisas haviam se tornado diferente e sentiu que o seu dia-a-dia havia mudado. A sua casa havia se tornado um lugar muito mais agradável para se situar. Toda a família começou a interagir mais um com o outro. O pequeno amigo havia alegrado, transformado o ambiente e, também, religado o laço de intimidade da família novamente. Além de trazer alegria e benefícios à condição salutar da família, Cairo se encontra igualmente feliz. O cachorro se diverte com a sua dona de uma forma em que nenhum bicho engaiolado poderia experimentar, como a de brincar com brinquedos industrializados e, também, passear com ele em um parque perto de casa. Assim, conclui-se que ambos se encontram felizes: a dona e o cachorro. Pois a relação deles é mútua.
No Centro de Controle de Zoonoses existem muitos cachorros assustados, medrosos e machucados. A maioria deles, no instituto, não conseguem olhar direito aos visitantes. Eles têm medo. Medo do abandono, medo do mau trato. Ou melhor, medo da ausência de amor. Até 2008, os cachorros abandonados nas ruas eram trazidos, através de várias carrocinhas, ao próprio Centro. Eles eram postos num estado de adoção e, se não fossem adotados dentro de um período de cinco dias, eram sacrificados — numa câmara atualmente inexistente — do instituto. A morte era justificada pelo intuito de que queriam controlar o número da matilha circulante em São Paulo. Às vezes, 200 cachorros eram mortos de uma só vez.
A vida dele é dependente das pessoas. Matar, sem dúvidas, é uma escolha egoísta feita pelo ser humano e que o próprio cachorro, dono de sua vida, não tem outra opção senão aceitar o sacrifício. Se o cachorro depende de alguém, consequentemente, dependerá de sua ajuda e amor. É preciso olhar o mundo sob a perspectiva de Celso. Ainda que, manchado de cinza, a visão e a vida colorida. Colorida pela família. Colorida pela bênção de três amigos que lhe foram dados para enfrentarem juntos a vida.