Por
Letícia Passos
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| Ficções científicas mostram o futuro da sociedade capitalista |
Você já parou para se perguntar por que a maioria das
séries (e livros) futuristas descrevem cenários sociais em que as grandes
corporações ditam as regras políticas, econômicas e comportamentais da
sociedade? Algumas produções televisivas têm esta temática como assunto principal
e em outras vem diluída na história central. A maioria dos telespectadores —
apesar de sentirem a mesma indignação e revolta dos personagens e torcer para
que eles tenham sucesso na luta contra o sistema — não nota que essa mesma luta
acontece na realidade, ainda que de forma mascarada.
Infelizmente, grande parte dessas séries coloca os
revoltosos como vilões da história, ainda que eles sejam personagens principais
ou coadjuvantes. Um exemplo de vilanização de rebeldes (lê-se classe
trabalhadora) pode ser encontrado na série canadense Continuum, em que a personagem principal (Kiera Cameron) trabalha
para as corporações e confronta o grupo "terrorista" Liber8. Lutando contra a desigualdade
social e a intensa exploração corporativa, o grupo viaja 60 anos no tempo para
impedir que as empresas consigam o poder que, posteriormente, as colocará como
figura dominadora do sistema.
O enredo da série gira em torno da disputa entre a
policial, que os seguiu até o passado para impedi-los de mudar a história, e o
grupo Liber8. O ponto mais
interessante da série é que o momento crucial de mudança do status da sociedade
acontece no nosso presente. Este mesmo que vivemos, com a tecnologia sendo
ponto de partida para quase tudo.
Outra série que aborda essa temática da luta de classes
é Dark Matter, apesar de assumir um
ponto de vista diferente de Continuum.
E mais uma vez aqueles que lutam contra o sistema são transformados em vilões, embora
neste caso sejam anti-heróis. A série narra a história de um grupo de
criminosos que viaja pelo universo roubando grandes corporações. Dark Matter começa no momento em que os
personagens principais, devido a certas circunstâncias não reveladas, perdem a
memória e se veem perseguidos pela Autoridade Galáctica (polícia) sem entender
o motivo. Ao longo das duas temporadas, a série exibe de maneira sutil esse
combate à dominação social exercida pelas corporações.
Blindspot — série
já recomendada aqui — também aborda o assunto por um ângulo diferente. O grupo
rebelde Sandstorm não combate as
corporações diretamente, mas o Estado, que se curva à vontade delas em nome de
acordos político-econômicos vantajosos para os governos, permitindo que
atrocidades aconteçam e escondendo as provas para que a população não descubra.
Pintado como o inimigo, Sandstorm
age de maneira nada ortodoxa para instigar a revolução, trazendo à tona as ações
governamentais que prejudicam a sociedade.
Esses são apenas alguns exemplos de séries que
"preveem" o futuro da humanidade de maneira bem próxima da realidade.
E por que a Indústria Cultural produz séries que podem
fomentar a revolução e destruir o sistema — Capitalismo — que a mantém
funcionando? Muito simples! Como o documentário canadense The Corporation
(2003) salienta, as grandes produtoras e emissoras de televisão, principais
manipuladoras da opinião pública, aprovam essas séries porque não acreditam que
seu conteúdo seja suficiente para conscientizar e causar mobilização social
significativa. De certa forma, essa crença não está tão longe da verdade, afinal a maioria das pessoas não está preparada para despertar e sair da zona de
conforto gerada pelo analfabetismo político.
Agora que você teve uma palinha da realidade, vai
continuar permitindo que as grandes empresas esfreguem na sua cara que estão
atuando deliberadamente para controlar a sociedade bem debaixo do seu nariz? Ou
vai começar a agir como ser político e fazer algo a respeito? Não é necessário
sair às ruas (ainda) com meia dúzia de cartazes, atos simples como
conscientização podem fazer toda diferença.
Eu fiz a minha parte. E você, vai fazer a sua?

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