segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Loka das Séries & Política: A Indústria Cultural está sambando na cara da Revolução

Por Letícia Passos


Ficções científicas mostram o futuro da sociedade capitalista


Você já parou para se perguntar por que a maioria das séries (e livros) futuristas descrevem cenários sociais em que as grandes corporações ditam as regras políticas, econômicas e comportamentais da sociedade? Algumas produções televisivas têm esta temática como assunto principal e em outras vem diluída na história central. A maioria dos telespectadores — apesar de sentirem a mesma indignação e revolta dos personagens e torcer para que eles tenham sucesso na luta contra o sistema — não nota que essa mesma luta acontece na realidade, ainda que de forma mascarada.

Infelizmente, grande parte dessas séries coloca os revoltosos como vilões da história, ainda que eles sejam personagens principais ou coadjuvantes. Um exemplo de vilanização de rebeldes (lê-se classe trabalhadora) pode ser encontrado na série canadense Continuum, em que a personagem principal (Kiera Cameron) trabalha para as corporações e confronta o grupo "terrorista" Liber8. Lutando contra a desigualdade social e a intensa exploração corporativa, o grupo viaja 60 anos no tempo para impedir que as empresas consigam o poder que, posteriormente, as colocará como figura dominadora do sistema.

O enredo da série gira em torno da disputa entre a policial, que os seguiu até o passado para impedi-los de mudar a história, e o grupo Liber8. O ponto mais interessante da série é que o momento crucial de mudança do status da sociedade acontece no nosso presente. Este mesmo que vivemos, com a tecnologia sendo ponto de partida para quase tudo.

Outra série que aborda essa temática da luta de classes é Dark Matter, apesar de assumir um ponto de vista diferente de Continuum. E mais uma vez aqueles que lutam contra o sistema são transformados em vilões, embora neste caso sejam anti-heróis. A série narra a história de um grupo de criminosos que viaja pelo universo roubando grandes corporações. Dark Matter começa no momento em que os personagens principais, devido a certas circunstâncias não reveladas, perdem a memória e se veem perseguidos pela Autoridade Galáctica (polícia) sem entender o motivo. Ao longo das duas temporadas, a série exibe de maneira sutil esse combate à dominação social exercida pelas corporações.

Blindspot — série já recomendada aqui — também aborda o assunto por um ângulo diferente. O grupo rebelde Sandstorm não combate as corporações diretamente, mas o Estado, que se curva à vontade delas em nome de acordos político-econômicos vantajosos para os governos, permitindo que atrocidades aconteçam e escondendo as provas para que a população não descubra. Pintado como o inimigo, Sandstorm age de maneira nada ortodoxa para instigar a revolução, trazendo à tona as ações governamentais que prejudicam a sociedade.

Esses são apenas alguns exemplos de séries que "preveem" o futuro da humanidade de maneira bem próxima da realidade.

E por que a Indústria Cultural produz séries que podem fomentar a revolução e destruir o sistema — Capitalismo — que a mantém funcionando? Muito simples! Como o documentário canadense The Corporation (2003) salienta, as grandes produtoras e emissoras de televisão, principais manipuladoras da opinião pública, aprovam essas séries porque não acreditam que seu conteúdo seja suficiente para conscientizar e causar mobilização social significativa. De certa forma, essa crença não está tão longe da verdade, afinal a maioria das pessoas não está preparada para despertar e sair da zona de conforto gerada pelo analfabetismo político.

Agora que você teve uma palinha da realidade, vai continuar permitindo que as grandes empresas esfreguem na sua cara que estão atuando deliberadamente para controlar a sociedade bem debaixo do seu nariz? Ou vai começar a agir como ser político e fazer algo a respeito? Não é necessário sair às ruas (ainda) com meia dúzia de cartazes, atos simples como conscientização podem fazer toda diferença.

Eu fiz a minha parte. E você, vai fazer a sua?

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