Quem precisa de dois olhos ou um rosto sem
cicatrizes? Quem não adora carregar marcas roxas depois de um passeio
movimentado na Paulista? Todo mundo do rolê foi lá para receber as premiações
dos paladinos da ordem.
Sérgio foi fotografar a bagunçinha da galera
da democracia e sentiu um impulso forte, irresistível, que o colocou diante da
melhor foto de sua vida: uma bala em plena trajetória. Infelizmente, a foto não
rendeu. Ele não conseguiu pegar o melhor ângulo. Na próxima, quem sabe?.
Deborah decidiu se aventurar também. O maior
desafio de sua juventude: se colocar diante de estilhaços de bombas de efeito
moral. E lá estava ela, pronta para angariar seu prêmio: a perda do olho
esquerdo. Missão completada com sucesso!
Tantos outros comparecem às manifestações não
apenas para mostrar seu poder como povo — ou a ilusão de poder, vai saber —,
mas buscar também o certificado de participação. Cassetete no lombo: com sorte
algumas costelas trincadas; bala de borracha na perna: alguns pontos na coxa,
um verdadeiro perdulário; gás lacrimogêneo — o mais fácil de todos os prêmios —:
olhos injetados, assim a turma pensa que você está na high.
E os mantenedores da ordem, os grandes heróis
da noite sempre de olho, com seus escudos levantados, capacetes imponentes e as
armas em mãos – os Robocops brasileiros —, aguardam o próximo cidadão
libertário em busca de uma aventura. Para este bravo guerreiro a PM dedica o
poema de Valesca: Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba.

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