terça-feira, 13 de setembro de 2016

Apropriação ou Globalização?

Por: Giovana Costa, Ingrid Duarte e Letícia Passos


A apropriação cultural é um tema relativamente novo dentro da sociedade. Muita gente nunca ouviu falar e, se ouviu, não sabe explicar o que é. Apropriação cultural é a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Dentre estes elementos estão objetos, acessórios, penteados e podem envolver, ainda, outros âmbitos como a música, por exemplo.  

A apropriação cultural descreve aculturação ou assimilação, mas pode implicar em uma visão negativa em relação à aculturação de uma cultura minoritária por uma cultura dominante. Há quem acredite que a apropriação cultural é na realidade uma forma de ofensa e desrespeito às culturas que são, frequentemente, oprimidas por culturas dominantes. Há também quem não concorde com a ideia de que há apropriação, seguindo a ideia de que o mundo é globalizado e a informação e os costumes estão ali para serem compartilhados.

A polêmica em torno do tema é grande até entre as culturas minoritárias. Os negros, por exemplo, não conseguem entrar em consenso sobre a existência da apropriação na cultura afro. Alguns acreditam que usar os símbolos religiosos e de representação da luta negra, além de apropriação também é desrespeito. Isso porque, os indivíduos que usam turbantes, por exemplo, não o fazem em homenagem à luta dos negros, mas porque é fashion, modismo. O turbante é um dos símbolos da identidade negra, africana e brasileira, e também remete à cultura oriental, o que diferencia uma das outras é a forma em que elas foram adaptadas pelo uso de cada povo. No Brasil, o turbante, muito utilizado pelas baianas, chegou influenciado pela cultura africana e representa o reconhecimento histórico e cultural das crenças e lutas negras.


 
Turbante como símbolo da cultura afro

 Entre os que creem na apropriação cultural está Amannda Souza (22), estudante de Engenharia de Biotecnologia e Bioprocessos. “Eu não me sinto ofendida, mas sinto como se a cultura dos meus estivesse sendo tomada. Além disso, tem o fato de quererem ‘embranquecer’ elementos da cultura negra. É um ponto que me incomoda muito. O moço branco de dreads sempre vai ser o cheio de estilo e o negro de dreads sempre marginalizado”, diz ela. Amannda costumava ter o cabelo alisado quimicamente durante o ensino médio, mas há alguns anos ela resolveu assumir o seu crespo e parece estar muito feliz com o resultado. “Minha mudança aconteceu de fora para dentro, eu tive que mudar a minha estética para perceber quem eu sou e o que eu posso fazer para que outras pessoas também se encontrem”, conta ela.

Para os que não acreditam na existência da apropriação, sejam negros ou brancos, o cabelo alisado de Amannda também seria apropriação cultural. Para Manu Silva (26), jornalista do Farol de Notícias - jornal da cidade de Serra Talhada (PE) -, isso é um equivoco, pois a cultura branca é na verdade uma ditadura na qual as pessoas, qualquer que seja sua etnia, precisam se encaixar. Manu é co-fundadora do Coletivo Fuáh, que luta pelas causas negras, feministas e LGBT.


Polêmica envolvendo a cantora Lady Gaga, que já apareceu 
em diversas ocasiões usando o turbante como acessório.

  Do outro lado da discussão, os que defendem a globalização da cultura, defendem que nenhuma cultura é detentora exclusiva de nada. É o caso do Instituto Libertare. Em seu artigo intitulado “Por que apropriação cultural não existe”, eles explicam seus motivos para não acreditarem nesse posicionamento. “Nada pertence a uma cultura de maneira tão exclusiva a ponto de não poder ser globalizada, e nenhuma cultura pode se dizer dona de uma prática ou objeto”.

Na defesa de seus argumentos, o Instituto usa o exemplo do turbante, um símbolo da luta negra, mas que também é usado em países do Oriente Médio e na Índia. Ainda defendendo a não existência da apropriação cultural, ele usa o recente consumo da cultura japonesa por jovens de todas as partes do mundo e que não é considerado apropriação. “Mas por que apenas quando se trata do branco e do negro - do ‘europeu’ apropriando-se do ‘africano’ - é algo a ser ‘problematizado’?, enfatiza o Instituto.

Nayara Barros (28), estudante de Publicidade e Propaganda, por exemplo, tem uma opinião parecida com a do Instituto Libertare. “Não, pelo contrário, acho até legal as pessoas gostarem de penteados, teoricamente, negros. É um sinal de que respeitam nossa cultura”, revela ela.

Entretanto, não são apenas os negros que lutam por essa causa. Índios de diversas tribos, em várias regiões do globo, se colocam contra o uso de itens sagrados de sua cultura como enfeites de moda, além de se posicionarem contra a ideia preconceituosa de que sua cultura já não existe mais.

A polêmica do uso do cocar

De acordo com as definições de apropriação cultural, um dos problemas do uso de certos itens de culturas específicas está na mudança do significado cultural ou religioso que ele representa.

O cocar, símbolo da cultura indígena representa proteção e honra. Ele é conquistado por meio da coragem e suas penas representam os atos durante a batalha. Seu uso é restrito para ocasiões especiais. Entretanto, não é o que se vê nos dias de hoje. Dentre as inúmeras tendências dos grandes festivais de música, como Coachella e Lolapalooza, está o uso do cocar. Além disso, recentemente, uma coleção especial para festivais de música de temporada foi criada pela rede sueca de "fast fashion", H&M. Entre as peças da coleção, estava o símbolo da cultura indígena.

 A situação chamou atenção quando uma nativa da tribo "Ojibwa-Mohawk", Kim Wheeler, revelou durante uma entrevista ao portal The HuffingtonPost, qual foi sua reação ao se deparar com o item em uma das lojas: “O meu primeiro instinto foi o de comprar todos eles e jogá-los no lixo. Isso não nos honra e nem é lisonjeiro, faz uma paródia da nossa cultura”. Os cocares foram retirados das 62 lojas do Canadá, após três queixas serem feitas sobre sua comercialização, de acordo com a porta-voz canadense da marca H&M.

A polêmica não parou por aí. Após algumas petições contra o uso do cocar, alguns importantes festivais de música proibiram seu uso. O primeiro foi o Tall Tree Music Festival e o Bass Coast, que acontecem no Canadá. Na Austrália, o Meredith Music Festival, o cocar foi incluído na lista de itens proibidos. Nos Estados Unidos, o festival Lightning in a Bottle decidiu fazer o mesmo após o apelo dos Chumash, que vivem na mesma área onde o evento acontece, na Califórnia.

Em junho de 2014, o cantor Pharrell Williams pediu desculpas por sair na capa da revista "Elle" usando o item. 


Apropriação cultural na música

Na música, há quem aponte casos de apropriação cultural. Seja na produção de videoclipes ou no segmento musical de certos artistas. Cantores como Beyoncé, Selena Gomez e  Justin Bieber, por exemplo, já foram acusados de fazer  uso indevido de certas culturas. O uso de acessórios sagrados e repletos de simbolismos culturais e históricos da cultura indiana, por exemplo, é constantemente utilizado por alguns artistas. Além do uso de penteados da cultura negra, por exemplo, como é o caso do cantor Justin Bieber. 

Quando o assunto é o rap, a polêmica é ainda maior. "Rap" significa rhythm and poetry (ritmo e poesia), o segmento musical surgiu na Jamaica na década de 1960, e foi levado para os Estados Unidos, mais especificamente para os bairros pobres de Nova Iorque, no começo da década de 1970. Jovens de origens negra e espanhola, em busca de uma sonoridade nova, deram um significado ao rap, explorando a luta de certos grupos sociais e étnicos em relação a repressão que sofreram e ainda sofrem.

Rappers negros como Tupac e Notorious B.I.G. haviam lutado muito para conquistar o direito de expressão negro, então o rap feito por brancos sempre causou certo estranhamento em algumas pessoas. Rappers como Eminem, Macklemore e a australiana Iggy Azalea já foram fortemente criticados por pessoas que acreditam que eles estariam se apropriando de um espaço de expressão da luta negra que não lhes pertence.

Para a Profª. Drª. Vera Lúcia Valsecchi, do Departamento de Gerontologia e Antropologia da PUC-SP, o processo de apropriação cultural não envolve grupos ou sociedades, mas indivíduos ou grupos. “Refere-se à adoção de traços ou conditas próprias de outras culturas. Neste sentido, pode-se afirmar que é pouco nítida a separação entre ‘apropriação cultural’ e o uso de traços culturais disseminados pelo processo de globalização”, explica a Vera Lúcia. A professora ainda menciona que a apropriação difere radicalmente das lutas pela identidade étnica; muito diversa e relacionada à defesa de culturas e heranças culturais.

Vera não questiona a existência da apropriação, considerando uma consequência do mundo globalizado. “Falar na existência dela [apropriação cultural] significa adentrar em vários âmbitos da vida sociocultural, a exemplo de expressões verbais ‘fast’ e ‘happy hour’, por exemplo, de roupas, alimentos, estilos de vida”, continua. Sobre a apropriação na música, ela diz o seguinte: “Longe de tratar-se de um fato novo, ganhou grande intensidade na sociedade atual. Foi o que aconteceu com o Blues”, exemplifica.

As opiniões sobre a questão são muitas e as pessoas parecem não chegar a uma solução para a polêmica. A globalização extinguiu fronteiras e dificilmente haverá uma singularidade cultural, todas as culturas farão uso de elementos de outras, mas é necessário bom senso para discernir os limites que se ultrapassa. Se o símbolo que se “ostenta” como artefato de moda tem significado e representação cultural, é melhor considerar a ofensa que o uso indevido pode gerar. É preciso compreender que o respeito por simbolismos, religiões, costumes e a história de cada cultura é indispensável.

E você, o que acha? Dê a sua opinião.

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