Por: Letícia Passos
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Foto:
arquivo Coletivo Fuáh
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O que começou no grupo do Whatsapp dentro da Universidade em 2015, hoje é um movimento que vem ganhando força
e respeito em Serra Talhada, cidade no interior de Pernambuco. Esse é o Fuáh.
O coletivo ganhou esse nome por causa do cabelo das mulheres negras que fazem
parte do movimento. A palavra, muitas vezes usada no sentido pejorativo, ganhou
um novo significado. Na verdade, a expressão tem sido usada por elas em
diversos contextos, até mesmo para se cumprimentar.
A união dessas meninas
começou com a transição capilar. Uma das co-fundadoras, Shirlayne Oliveira,
estava passando por um momento de mudança, pronta para assumir seu cabelo natural
e recebeu todo apoio necessário de sua amiga Andresa Magalhães, que explicou
todo o processo de transição. Andresa teve a ideia de criar um grupo no
Whatsapp para unir as negras que passavam pelo mesmo processo. O Big Chop é um
processo complicado que faz algumas mulheres se sentirem “feias” e o espaço da
universidade transmitia a segurança necessária para que o grupo fosse ganhando
adeptos.
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| Foto: arquivo Coletivo Fuáh |
Com o Dia da
Consciência Negra (20 de novembro) chegando, as garotas queriam se encontrar,
transformar um grupo privado do Whatsapp em algo com impacto social. Os
impedimentos eram muitos, no entanto, eles não foram suficientes para
impedi-las de seguir com os planos. Veio então a ideia de trazer para Serra
Talhada o “Encontro de Cacheadas”, que já acontece em diversas cidades do país.
“O encontro foi superbem aceito pela
cidade”, conta Manu Silva, repórter do Farol
de Notícias e uma das co-fundadoras do Fuáh.
Manu não gosta de ser
chamada de jornalista, por ser formada em Letras, e insisti muito em dar
crédito a Shirlayne e Andresa pela iniciativa do coletivo. Emanuelle sente na
pele todos os dias a hostilidade das pessoas. Além de negra, Manu está acima do
peso e não nega sua homossexualidade. “Um preconceito puxa o outro”, diz Manu.
Mas ela não se permite abater pelo preconceito e mantêm a cabeça focada nos
planos para o coletivo.
O objetivo do Fuáh é
dar aos eventos culturais do grupo uma oficialidade dentro das datas
comemorativas de Serra Talhada. O Coletivo tem recebido diversos convites da
Prefeitura e de Universidades das cidades vizinhas para a promoção de eventos.
No dia 13 de maio deste ano, por exemplo, no aniversário de 128 anos da Abolição da
Escravatura, o Fuáh promoveu eventos culturais em um dos bairros periféricos da
cidade. O evento teve seu foco no auxílio a crianças negras na aceitação de sua
identidade. “Elas não conseguem aceitar sua negritude, elas não conseguem
entender todo esse processo de racismo, de preconceito que elas sofrem em casa,
na escola”, revela Manu. Além deste evento dedicado às crianças, elas também fizeram
uma oficina, que visou ensinar amarração de turbantes e tranças.
Ao falar do turbante
como acessório de moda usado pelos “brancos”, Manu se posiciona sem pestanejar.
“O turbante é um exemplo de luta”, diz a jornalista. Manu não concorda com o
uso de símbolos negros como itens de beleza. Para ela, quando um branco usa o
turbante é fantástico, mas quando um negro usa é chamado de “macumbeiro”,
demonstração de desrespeito também pelas religiões africanas.
A jornalista acredita
que a Apropriação Cultural é real e acontece com diversas etnias todos os dias.
Sobre as justificativas que algumas pessoas dão sobre terem parentes negros,
ela — assim como centenas de negros — não acredita que sejam válidas, pois
essas pessoas não passam pelas humilhações e não batalham pelo respeito
diariamente, portanto, não compreendem a magnitude do processo de aceitação do
negro e da cultura afro como muito mais do que acessórios de moda.
Como parte da mídia,
Manu acredita que a imprensa não dá tanta importância ao tema Apropriação
Cultural como deveria. “A grande mídia só fala por temporada ou quando pode
virar manchete”, diz ela.
Mas o Fuáh não defende
somente a igualdade e respeito aos negros, o coletivo também apoia a causa
feminista e LGBT. O posicionamento feminista dessas garotas causou polêmica
depois da matéria da Veja
sobre Marcela Temer. Diante da reportagem, que ofendeu mulheres em todo o país,
o Fuáh realizou um protesto nas ruas no dia 30 de abril contra a ideia do
“Bela, Recatada e do Lar”.
O protesto foi
anunciado no Farol
de Notícias e recebeu muitos comentários de apoio, mas também de
crítica. O que mais marcou Manu foi uma leitora que não escondeu sua identidade
(uma opção disponível no site) e acusou o Fuáh de estar plantando o discurso de
ódio e de promover a segregração entre as mulheres. A polêmica foi ainda maior
quando algumas das meninas resolveram fazer fotos seminuas com a hagtags #Belarecatadaedolar e
#FotaçoFuáh, pintada nas costas.
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| Foto: arquivo Coletivo Fuáh |
No último quarta feira
(21/9), o coletivo completou um ano de lutas e a data não poderia passar em
branco. Para comemorar o primeiro aniversário do Fuáh, as meninas decidiram
celebrar em grande estilo com discussões sobre o tema “Violência contra a
mulher negra”, durante o final de semana, na Concha Acústica da cidade.
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Essas garotas ainda têm muito pelo que lutar,
especialmente vivendo em uma cidade onde a cultura coronelista é predominante,
mas a determinação e dedicação que têm pela causa não vai desaparecer,
especialmente agora que o movimento vem ganhando o reconhecimento da população
serratalhadense e de tantas outras cidades de Pernambuco.





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