segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Belas, Recatadas e do Fuáh

Por: Letícia Passos


Foto: arquivo Coletivo Fuáh

O que começou no grupo do Whatsapp dentro da Universidade em 2015, hoje é um movimento que vem ganhando força e respeito em Serra Talhada, cidade no interior de Pernambuco. Esse é o Fuáh. O coletivo ganhou esse nome por causa do cabelo das mulheres negras que fazem parte do movimento. A palavra, muitas vezes usada no sentido pejorativo, ganhou um novo significado. Na verdade, a expressão tem sido usada por elas em diversos contextos, até mesmo para se cumprimentar.

A união dessas meninas começou com a transição capilar. Uma das co-fundadoras, Shirlayne Oliveira, estava passando por um momento de mudança, pronta para assumir seu cabelo natural e recebeu todo apoio necessário de sua amiga Andresa Magalhães, que explicou todo o processo de transição. Andresa teve a ideia de criar um grupo no Whatsapp para unir as negras que passavam pelo mesmo processo. O Big Chop é um processo complicado que faz algumas mulheres se sentirem “feias” e o espaço da universidade transmitia a segurança necessária para que o grupo fosse ganhando adeptos.


Foto: arquivo Coletivo Fuáh

 Com o Dia da Consciência Negra (20 de novembro) chegando, as garotas queriam se encontrar, transformar um grupo privado do Whatsapp em algo com impacto social. Os impedimentos eram muitos, no entanto, eles não foram suficientes para impedi-las de seguir com os planos. Veio então a ideia de trazer para Serra Talhada o “Encontro de Cacheadas”, que já acontece em diversas cidades do país. “O encontro foi superbem aceito pela cidade”, conta Manu Silva, repórter do Farol de Notícias e uma das co-fundadoras do Fuáh.

Manu não gosta de ser chamada de jornalista, por ser formada em Letras, e insisti muito em dar crédito a Shirlayne e Andresa pela iniciativa do coletivo. Emanuelle sente na pele todos os dias a hostilidade das pessoas. Além de negra, Manu está acima do peso e não nega sua homossexualidade. “Um preconceito puxa o outro”, diz Manu. Mas ela não se permite abater pelo preconceito e mantêm a cabeça focada nos planos para o coletivo.

O objetivo do Fuáh é dar aos eventos culturais do grupo uma oficialidade dentro das datas comemorativas de Serra Talhada. O Coletivo tem recebido diversos convites da Prefeitura e de Universidades das cidades vizinhas para a promoção de eventos. No dia 13 de maio deste ano, por exemplo, no aniversário de 128 anos da Abolição da Escravatura, o Fuáh promoveu eventos culturais em um dos bairros periféricos da cidade. O evento teve seu foco no auxílio a crianças negras na aceitação de sua identidade. “Elas não conseguem aceitar sua negritude, elas não conseguem entender todo esse processo de racismo, de preconceito que elas sofrem em casa, na escola”, revela Manu. Além deste evento dedicado às crianças, elas também fizeram uma oficina, que visou ensinar amarração de turbantes e tranças.



Foto: arquivo Coletivo Fuáh
  

 Ao falar do turbante como acessório de moda usado pelos “brancos”, Manu se posiciona sem pestanejar. “O turbante é um exemplo de luta”, diz a jornalista. Manu não concorda com o uso de símbolos negros como itens de beleza. Para ela, quando um branco usa o turbante é fantástico, mas quando um negro usa é chamado de “macumbeiro”, demonstração de desrespeito também pelas religiões africanas.

A jornalista acredita que a Apropriação Cultural é real e acontece com diversas etnias todos os dias. Sobre as justificativas que algumas pessoas dão sobre terem parentes negros, ela — assim como centenas de negros — não acredita que sejam válidas, pois essas pessoas não passam pelas humilhações e não batalham pelo respeito diariamente, portanto, não compreendem a magnitude do processo de aceitação do negro e da cultura afro como muito mais do que acessórios de moda.

Como parte da mídia, Manu acredita que a imprensa não dá tanta importância ao tema Apropriação Cultural como deveria. “A grande mídia só fala por temporada ou quando pode virar manchete”, diz ela.

Mas o Fuáh não defende somente a igualdade e respeito aos negros, o coletivo também apoia a causa feminista e LGBT. O posicionamento feminista dessas garotas causou polêmica depois da matéria da Veja sobre Marcela Temer. Diante da reportagem, que ofendeu mulheres em todo o país, o Fuáh realizou um protesto nas ruas no dia 30 de abril contra a ideia do “Bela, Recatada e do Lar”.

O protesto foi anunciado no Farol de Notícias e recebeu muitos comentários de apoio, mas também de crítica. O que mais marcou Manu foi uma leitora que não escondeu sua identidade (uma opção disponível no site) e acusou o Fuáh de estar plantando o discurso de ódio e de promover a segregração entre as mulheres. A polêmica foi ainda maior quando algumas das meninas resolveram fazer fotos seminuas com a hagtags #Belarecatadaedolar e #FotaçoFuáh, pintada nas costas.

Foto: arquivo Coletivo Fuáh

No último quarta feira (21/9), o coletivo completou um ano de lutas e a data não poderia passar em branco. Para comemorar o primeiro aniversário do Fuáh, as meninas decidiram celebrar em grande estilo com discussões sobre o tema “Violência contra a mulher negra”, durante o final de semana, na Concha Acústica da cidade.


 Essas garotas ainda têm muito pelo que lutar, especialmente vivendo em uma cidade onde a cultura coronelista é predominante, mas a determinação e dedicação que têm pela causa não vai desaparecer, especialmente agora que o movimento vem ganhando o reconhecimento da população serratalhadense e de tantas outras cidades de Pernambuco.  

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